Nuno Coelho

Março 12 2009

Pobres de vós que ousam enfrentar-me

Eu sou Nobre Guerreiro

Luto em Nobre causa

Não se atrevam a defrontar-me

Fugí da minha frente

desimpeçam o meu caminho

Tremam ante o silvo da minha espada

sequiosa por sangue

ávida de luta e de dor

Separa membros secos do corpo imundo

Tremam ao avistar meu sólido escudo

protector fiel que não abandona o seu posto

protege minha carnal morada das espadas dos infíeis

junto com minha armadura inexpugnável

que pesa sobre meus ombros nas campanhas

mas ganha asas e espírito próprio em combate

minha armadura e meu escudo protegem o meu corpo

minha espada defende-o

mas e o meu Espírito?

Esse é defendido pelo gume afiado da crença

Esse é protegido por uma parede de fé

E se luto é apenas para fazer ver aos incrédulos, aos infíeis

que o caminho que sigo é o correcto

Meus inimigos tombam a meus pés

os poucos que restam caem de joelhos e pedem clemência

Pois bem, se querem ser poupados,

Acreditem!

Tenham Fé!

Sejam crentes como eu.

Vejo ante mim olhos toldados pela furia

toldados pelo orgulho ferido

viram-se para mim iluminam-se

pois agora eles veem

pois agora eles acreditam

agora poderão ser felizes

pois o seu coração viu a Luz que nos guia

Posso agora a casa voltar

sabendo que atrás de mim deixo crentes

os mesmos que antes eram inimigos da fé

A casa torno

Após árdua viagem de privações do corpo

de revelações do espirito

sinto de novo chão familiar sob meus pés

nas cercanias da minha aldeia me encontro

e a longa cruzada mais não me parece que vago sonho

percorro a distância que me separa de meu lar a voar

não sinto o chão tocar meus pés

apenas sinto o cheiro de casa

minha casa vi tantas vezes pelos olhos do coração

que nem credito agora que a tenho á minha frente

A minha casa...

Como se ontem tivesse partido

Abraço a minha mulher

Meu corpo e meu espirito ansearam pela caricia

daquele corpo puro e singelo

Como anseei pelo toque das suas mãos

incontáveis vezes minha mente viveu este momento

para agora acontecer mais intenso,

tantas vezes mais quente...

Sim.

Foi a esperança deste momento que me manteve quente nas frias noites

foi o saber que tinha aqueles braços abertos quando a casa tornasse

e foi a Fé.

Mas nada disso importa agora.

Voltei

Estou em casa.

Fico em pé...

A espada embainhada foi já pendurada na parede

o meu forte escudo encostado sob a fiel espada

e a minha casca de combate sendo retirada por carinhosas mãos de mulher

mãos brancas, limpas, manchadas agora com o sangue dos infíeis...

Com um orgulho que não disfarço,

desmbaínho a espada e mostro-lhe o sangue seco que fiz jorrar

das almas que remeti ao Criador

Ela, insensível a uma tal grandeza, encolhe os ombros

Como podes tu não perceber o grande orgulho de combater pela Fé?

como podes tu não sentir prazer ao saber que os antes infíeis

partilham agora as tuas crenças?

Mulher ignorante!

Mas os seus dedos continuam a pesada tarefa de me despir

do casulo metálico que me manteve vivo,

que me manteve a salvo dos golpes em mim desferidos

Finalmente o meu corpo transparece

Sujo pela poeira, mas Forte e Puro

O que conta é ter um coração como o meu, Purificado pela Fé.

Um banho refrescante tomo

Vejo a sugidade ser levada pela água de um rio

que não conhece Fé, Religião nem barreiras

Um rio que me viu nascer,

que me viu brincar,

que me viu trabalhar,

e que mais uma vez lava a sugidade do meu corpo

que mais uma vez arrasta a sujidade para longe

Com Roupa lavada, calçado limpo

e sem a pesada armadura, sinto como se tivesse asas

Renasço.

Entro mais uma vez naquele abrigo a que chamo Lar

desta vez, como se nunca tivesse partido

não fossem as máculas do meu corpo a dizerem o contrário

Sento-me a um canto,

puxo pela fiel espada,

não para a bramir no ar

mas para as suas máculas tirar

Sim. O corpo dos humanos cura-se

mas os metais, mesmo guiados pela Fé, têm que ser cuidados.

Chega a minha vez de cuidar daquela que tantas vezes me defendeu

limpá-la do sangue infíel

limpá-la dos intersticios dos Moiros

afiar sua lâmina, para que o seu trabalho possa ser feito

para que continue a cortar a carne canceros

para que purifique o corpo

Enquanto neste momento de Paz me encontro

entra em casa aquele cuja inocência povoa o meu coração

Quando saí para a batalha, aquele que no colo da sua mãe chorava,

Vejo agora entrar pela mão da avó...

Uma criança de bochechas rosadas e o mais inocente olhar

ohar que se vira para mim, sem saber o que dizer

sem saber o que fazer

No momento de indecisão reina o instinto de criança

que tantas vezes sonha em ter perto de si o seu pai

que quando o vê crê ainda sonhar

Eu estou em casa pequeno,

estou aqui, ao pé de ti.

Sem nada dizer seus braços para mim se precipitam,

para mim corre, agarrando-se a meu pescoço, soluçando,

dizendo não querer que eu desapareça quando ele acordar

Agarrado a mim ficou, por momentos que me parecem agora eternos.

não há palavras que descrevam um sorriso, uma expressão,

o contentamento de ver um sonho tornado realidade.

sem saber o que fazer

a criança pula, brinca, sorri.

Quer-me mostrar todo o seu mundo,

desde a macieira onde brincava com os amigos,

o rio onde a mãe e a avó lhe davam banho,

todos os seus brinquedos...

Todo o seu mundo.

- continua -

 

publicado por Nuno Coelho © às 00:58

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