Nuno Coelho

Março 12 2009

 

- continuação -

E com tudo isto ficou a minha espada abandonada ao lado da pedra de amolar,

enquanto e me deleitava com os prazeres esquecidos de criança

enquanto eu voltava a ser criança

até que a noite veio

e eu tive que carregar um corpo mole

de um pequeno homem que tinha conhecido o seu Pai.

Deitei-o na sua cama e ali fiquei, á sua cabeceira.

Também eu tive medo de acordar e ver que era tudo um sonho

Sim. Também com este momento eu tinha sonhado.

uma eternidade desejei passar a olhar uma criança,

a ver o sorriso de uma criança,

a ver o rosto mais descansado, mais feliz de todo o mundo.

Senti umas mãos finas e suaves tocarem os meus ombros frios,

gelados por uma noite rigorosa,

mas não fria o suficiente para gelar o meu coração...

Aquilo que tantas vezes me aqueceu deixou de ser sonho...

Estava á minha frente, mais real que nunca.

Um corpo quente de mim se aproximou, e abraçados ficamos,

enrolados numa manta,

sentados numa velha pele de urso

fruto de antiga caçada numa juventude tormentosa

A noite ali passámos

a ver o sorriso de uma criança...

a sorrir como crianças.

Num sobressalto acordo de madrugada

crendo ter sido emboscado pelos infieis

quando vejo dois pequenos braços enrolados no meu pescoço

cravado em mim um olhar que dizia "estás aqui".

Também o abracei, até que o dia raiou.

Gentis modos despertaram o meu sono leve de batalha

com a separação de uns braços que tinham afazeres:

o desjejum da familia, arrumações... Não parava o seu mundo.

Então, ao sentir o chão macio dei conta que não sonhara.

o peso sobre o meu peito não era a espada tão familiar,

mas um pequeno querubim abandonado agora numa manta, caído no chão.

Sono simples, genuino, sem preocupações, espelho de felicidade,

Assim que se sentiu só, despertou, receando a partida

sentou-se no chão, querendo chorar...

Pobre pequeno... Estou aqui...

Seu sorriso voltou, e fez questão de me acompanhar para onde quer que eu fosse

como podia eu dizer que não?

O maravilhoso repasto caseiro buscámos,

qual dois homens de trabalho esfaimados

ou duas crianças cansadas da brincadeira...

Depois de um pequeno almoço digno dos Anjos por que lutei,

olhei para o canto onde ficara esquecida na véspera a espada...

tombada, qual guerreiro que perde a alma, arremessada sem cuidado...

Aquela que tantas vezes empunhei, eufórico, Gigante,

parecia agora pertencer a um mundo completamente distinto deste em que eu me encontrava

O pequeno, para o aparato de guerra olhou,

num canto que ele sempre imaginara ser habitado pelos mais estranhos utensílios,

mas que nunca tinha visto povoado pelos instrumentos para que fora consebido.

Tudo quis saber... Para que servia isto, o que fazia aquilo...

Até que na espada deteve o seu olhar...

Longamente, sem sorrir ou chorar

sem sequer saber o que sentir...

Nisto para mim se virou, indagando: Para que é?

Para combater os inimigos da Fé! respondi-lhe eu, sentindo-me grande Guerreiro

mas então notei que os olhos dele tinham estacado não na magnificência da espada

mas no sangue queimado que manchava a lâmina.

Perguntou-me de quem era...

A Coragem faltou-me, não a tive para dizer que era dos inimigos da Fé e senti-me pequeno...

muito pequeno, insignificante.

Nobre espada que tantas vezes fez derramar sangue,

não conhece Dono, Senhor ou Infiel,

e as mãos de um inocente não reconheceu...

Na ansia de tocar um tão deslumbrante objecto,

um pequeno corte manchou a alva pele...

sem saber porquê, um sorriso saiu furtivo dos meus lábios

disse-lhe que um dia seria um grande guerreiro!

Um olhar de reprovação senti pesar sobre os meus ombros

Um olhar antes enternecido era agora triste,

voltado para um monte de panos, procurando uma ligadura improvisada...

Enquanto o pequeno era assistido,

Elevei o aço temperado pelo calor da batalha,

para continuar com a tarefa começada na tarde anterior.

Não fosse o sangue inocente ter secado tão depressa...

Seco, igual ao sangue de tantos outros infieis que manchavam uma lâmina sequiosa

Nesse momento vi toda a minha vida passar diante de meus olhos

Nesse momento vi o meu filho chorar porque o pai não mais chegaria a casa

vi minha mulher com parca trouxa ás costas, com uma criança ao colo,

vi a minha casa a arder,

vi o meu corpo estendido numa vala de um qualquer campo de batalha.

Era agora eu o Infiel, o Impuro, o Inimigo de uma fé.

Era agora o campo de batalha o meu quintal.

Minha família humilhada pela minha descrença

o chão onde antes floresciam rosas manchado pelo meu sangue

por uma ferida já sem dor escorria o último fio de Vida

de onde Vida há muito não havia.

Escorria o negro líquido pastoso para o rio, insensível,

que o carregava para longe, como se de sugidade se tratasse

Agora era eu o infiel

Agora, era a minha casa invadida por quem tinha outras Leis, outros Credos.

Mais uma vez vi os olhos da derrota fixos em mim...

Não uma nova Fé era espelhada.

mas a perda de todo o orgulho,

a perda de toda a dignidade

a incapacidade de defender a sua casa, a sua família,

contra o invasor,

o extremo de renegar a tudo o que conhece,

tudo em que acredita, para ver a sua vida poupada,

para poder ver mais uma vez a sua família...

Perda da Dignidade? Perda do Orgulho?

Encarar os seus filhos de frente e dizer que tinha sido derrotado?

Saber sim que, graças á sua humilhação

aqueles que ama seriam poupados...

Olhos brilhantes, não de Fé, mas de ódio dissimulado

de um ódio que é justo

e que dará mais força que toda a Fé dos céus

Eis o segredo da luta feroz dos Infieis:

O Ódio.

A mais cruel força da natureza rebenta de um coração que deseja Vingança

Nem Fé, Muro, Religião, poderão parar alguém sem medo de Morrer,

alguém que viu aqueles que ama derrotados,  humilhados,

um dos maiores Guerreiros, chamo eu de Infiel...

Apenas porque chamamos nomes diferentes aos mesmos Deuses...

Vejo-me num campo de batalha,

oiço o silvo de uma espada que chama a si as almas perdidas,

que ceifa  vidas

as vidas dos pais de crianças que brincam inocentes,

as vidas dos jovens que vêm o mundo diminuir á sua volta,

a vida que poderia ser minha,

a morte que poderia ser minha,

a do meu filho, de meu irmão,

a vida que foi do meu pai...

Queimando aldeias em nome da Fé,

Vejo a minha casa queimada em nome da Fé.

A Fé, algo tão insignificante para mim neste breve momento,

mas tanto mais importante para o Guerreiro que empunha a tocha.

Vejo famílias partirem apenas com uma trouxa de haveres retirados de um mundo em chamas

Vejo minha família passar, sem nada, com dois trapos enrolados,

rebaixando-se por uma côdea de pão, por mim atirada, enquanto passo vitorioso,

julgando-os convertidos á minha Fé.

Não!

Eu combato pela Fé!

Pela nossa Fé!

Eu não posso estar errado!

Mas, também eles se defendem, por algo mais que Fé,

pelas suas familias, pelas suas casas,

só depois pelos seus ideais.

Fitam-me vitorioso,

olhos que não têm muito de diferente dos olhos sem vida,

que jazem num campo de batalha que nasceu como jardim

Tombados em batalha ímpia, corpos acumulados

sem vida, um trapo de carne seca, estéril, sem Vida,

perdida por um ideal, por uma crença,

numa Luta Divina.

Uma Morte Nobre.

A Morte ansiada pelos Paladinos...

Não mais protegerão os seus filhos

não mais verão suas famílias...

Nobre?

Outros olhos são os que me fitam...

olhos sem Alma, derrotados, arrastados na Lama de corpo e de Espírito

vivem sem ideais,

                sem crenças,

                               humilhados,

mas verão de novo o que resta das suas famílias,

poderão defender os seus queridos mais uma vez...

Sim...

o meu terror nas batalhas é dissimulado pelo ópio da Fé,

o meu terror á noite é escondido nas sombras da Crença, da Religião

Mas há sempre quealquer coisa que me atemoriza...

Foi preciso ver o meu Espírito Negro, para saber...

Não são os caídos no campo que me povoam a Treva do Espírito:

são os olhos dos vivos...

Durante o dia,

olhos que pedem Perdão por pecados que não cometeram,

pedem pela Vida que não roubaram,

que dissimulam a sede de Vingança,

Durante a noite,

povoam os meus sonhos os olhos dos anjos caídos...

Antes o meu escudo era a Fé...

Matava corpos sem alma, sem crenças, só corpos...

- continua -

 


 

publicado por Nuno Coelho © às 00:57

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