Nuno Coelho

Março 12 2009

 

- continuação -

Agora...

Agora vejo quantas vezes matei sem razão

quantos iguais a mim foram, nascidos de carne delicada,

criados por mães tementes da do duro futuro...

Agora vejo os seus olhos sem vida fitarem-me,

sem alma, sem desejos, sem sede de Vingança,

sem cor, sem brilho, sem sentimentos, sem remorso...

Olhos que não mais verão as suas Familias,

Olhos que não verão os seus filhos crescer,

Olhos que não verão os seus filhos brincar,

olhos que não verão os seus filhos Matar...

São os Mortos que me atemorizam...

Aqueles de quem não mais terei que me defender,

que mal não me farão,

aqueles que dilacerados pela minha espada

ao mundo dos Vivos não mais pertencem.

 

Mas que fé é a minha que tantas vidas Ceifou?

Mas que fé é a minha que me toldou a Visão?

O discurso, o poder da verdadeira ilusão

- a fé na palavra!

Ide Bravos soldados,

Defendei as vossas Famílias,

defendei as vossas Casas,

pois os Infieis virão

e teremos que nos defender.

Sem Credo ou Religião ou Fé, virão,

matarão os vossos filhos,

tomarão vossas casas e vossas mulheres

tomarão as vossas Vidas!

União, Meus Irmãos!

Partamos para a Batalha antes que Eles cheguem!

Vamos espalhar a Fé entre os Infieis,

Vamos mostrar-lhes o nosso caminho!

Nem que para isso tenhamos que tomar as suas Vidas,

queimar as suas Casas,

Matar os seus filhos e as suas mulheres.

Vamos atacá-los porque eles são Maus.

E podemos fazê-lo porque o Nosso Deus assim o manda!

Nós temos a Nossa Fé, que nos Protege.

As nossas Crenças são Puras e Santas!

Porque...

Porquê?

Como podemos nós tomar como nossa a Alma de um semelhante?

Como podemos nós acreditar numa Lei que deturpa os nossos sentidos?

que nos condena á obediência cega?

Como podemos seguir uma Lei que nos diz para Matar,

quando nem seria preciso defendermo-nos?

Como podemos seguir uma Lei que nos diz que o nosso irmão é nosso inimigo,

apenas por não acreditar no mesmo que nós?

Como podemos sair de uma batalha vitoriosos

se invádimos,

se tirámos vidas...

Se tirámos vidas aos nossos Irmãos?

Não.

Mais não!

Chega de Mortes.

chega de Pregar Falsa fé.

chega!

É tarde.

A sede de sangue é tanta que todos cegou

A peça é tão bem encenada que todos batem palmas e aplaudem,

sem sequer pensarem em quem segura o palco.

A Fé ou a Família

As Propriedades ou a Glória

A defesa ou o ataque

Tudo serve de motivo para a batalha

seja uma vida tirada,

seja uma bandeira queimada,

seja um olhar desrespeitoso

é tudo um motivo para a próxima batalha.

Uma batalha que durará até que todos se esqueçam do mutivo porque começaram,

então, qualquer motivo servirá para continuar...

Mas, será só isso?

Saberão os adultos tudo?

 

Dois exércitos próximos do combate

Marcham de encontro ao inexorável inimigo,

Impuro, infiel, mesquinho e traiçoeiro…

Nós somos bom, melhores, únicos, e temos que prevalecer…

Cresce a tenção, crescem as razões…

E com o aproximar, dão conta que o campo de batalha

Não viu ainda sangue.

Apenas um pequeno rapaz e uma pequena rapariga

que brincam no centro do campo, cheiram flores, trocam sorrisos...

Quis o destino que fossem de lados opostos do mundo,

cada um dos lados cheios de razóes, que duas crianças não compreendem...

Aproximam-se os exércitos... E param ante tal Afronta!

Uma criança inimiga ousa brincar com uma das suas crianças?

inimigos, o que é isso? Perguntaria qualquer uma delas.

Numa brincadeira inocente, a rapariga tira a flor com que o rapaz brincava...

O exército da aldeia da rapariga ri-se...

O exército da aldeia do rapaz pretende corrigir a afronta com sangue.

mas o rapaz, sentido,  arranca a flor das mãos da rapariga, que começa a chorar...

O exército da aldeia do rapaz ri-se...

O exército da aldeia da rapariga olha incrédulo, como pode o inimigo ser tão Cruel,

Só o Sangue pode calar o choro das mulheres! Ataquem!

mas as crianças não lhes ligam.

O rapaz, ao ver a rapariga chorar, arrepende-se do seu acto

logo colhe um grande ramo de flores perfumadas,

e dá á rapariga, com um beijo de desculpas.

As lágrimas dão lugar ao riso,

o riso de duas crianças que não compreendem os adultos.

Se eles querem o campo para eles, podem ficar com ele.

Dão as mãos e partem para outro vale, para continuarem a brincar.

Os dois exércitos, esquecidos do que os levou ali, ficam imóveis

Mas o que se passou?

Reconhecem ser irmãos, ou começará de novo a batalha?

Só cada um de nós poderá tomar uma decisão dessas.

Pode o Gigante da Guerra ser parado por duas crianças?

Não pelas crianças,

mas pela inocência que temos dentro de nós,

que ninguém ouve por ser demasiado orgulhoso...

Voltem ás suas casas, Paladinos sem causa!

Tenha tudo isto um fim.

Um fim, para a Guerra.

Duas crianças a brincar...

Fosse assim o mundo..

E todos seriamos melhores Humanos.

 

Fosse o mundo assim tão belo, justo, perfeito,

E a Guerra extinguia-se.

Não.

O mundo não é belo, justo, ou tampouco perfeito

Sem motivo nenhum cria-se uma contenda

e como tudo serve de justificação, essa contenda cresce

apodera-se do espírito, e do corpo.

Pelos mais justos motivos, tiram-se vidas,

Eventualmente esquecidos, mas sempre Justos.

Sofrem Nações,

morrem povos,

porque os seus motivos são Justos.

Porque os seus motivos são maiores, melhores e mais justos.

Não faz diferença que ninguém se lembre quais são,

mas deviam ser justos, maiores e mais puros.

Sim, porque nós não iríamos fazer guerra se assim não fosse.

Até que alguém se lembra.

As vitimas contam-se,

surge a vergonha.

e todos vêm que os seus motivos não eram bons, puros ou Justos,

surge o arrependimento

todos pedem desculpas,

todos choram os seus mortos

todos querem Paz

Até que novos motivos justos surjam para uma nova Batalha.

Então todas as lições serão esquecidas,

todos os mortos serão desenterrados

todos os motivos serão Justos.

E nenhuma criança irá parar uma batalha.

Ninguém vai saber porque são os seus o motivos mais justos,

ninguém vai perceber porque se combate

E um dia,

Não haverá ninguém para se arrepender,

para de arrepender outra vez.

 

Nuno Coelho © 05-99

 

publicado por Nuno Coelho © às 00:55

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