Nuno Coelho

Março 11 2009

O menino Mau e a Fada Verde

 

Vou-te contar uma história...

Vamos lá ver...

 

Era uma daquelas tardes de Outono... Era mais de Inverno!

 

Todo o bosque adivinhava o Inverno...

Os animais já há muito recolhiam comida, antes que as últimas folhas caíssem, e com elas desaparecesse também o alimento...

Nas suas tocas já havia um cantinho para se deitarem e passarem um Inverno quentinho.

 

As árvores tinham sacudido as folhas velhas, para que na primavera pudessem vestir folhas novas. Parecia que estavam todos prontos para receber o Inverno frio, com o seu manto mágico de neve...

 

No centro do bosque, havia uma árvore onde, diziam os antigos, vivia a Fada do Bosque, que do seu trono de árvore viva vigiava tudo o que se passava em seu redor, ajudava os animais e plantas, para que quando o tempo frio viesse, todos estivessem prontos...

 

Os homens da aldeia também se preparavam para o tempo frio. Eles cortavam lenha, para cozinhar e para se aquecerem quando o frio viesse. Todos os anos a Fada Verde - era assim que ela se chamava - via os homens fazerem isto e boa como era, todos os anos fazia florescerem mais árvores, para que quando o frio viesse, os homens pudessem ter lenha e os animais abrigo, sem que faltasse nada a ninguém...

 

Na aldeia viviam também crianças – Claro! Tinham que haver crianças para que esta história toda fizesse sentido, não achas?

 

É de uma destas crianças que eu te vou falar.

 

Não é do menino bom, que entra em todas as histórias, que é sempre bom e que nunca faz travessuras...

 

É de um menino mau...

Mas, como pode um menino ser mau? – Não sei! Mas ele era mau...

 

Este menino, tirava os brinquedos aos outros meninos, corria atrás dos animais só para os assustar, fazia asneiras atrás de asneiras e não valia de nada chamar-lhe a atenção, ralhar-lhe ou castigá-lo, porque ele não se importava.

 

Um dia, este menino tirou uma boneca da Rosinha, que ficou a chorar. Ele, riu-se dela, a chorar por causa de um bocado de trapo! Mas o Manelito, o irmão da Rosinha, não gostou nada daquilo e correu atrás dele. O João, fugiu dele, sempre a rir-se e a agitar a boneca no ar... Correu, correu... Atrás dele não ia só o Manelito. Já se lhe tinham juntado mais amigos, que também estavam fartos das tropelias do João, e que também o queriam castigar.

O João, rindo-se, olhou para trás e quando viu todos os rapazes da aldeia a correr atrás dele, fugiu para o bosque, a pensar que eles nunca o iriam seguir...

 

Preocupado só em correr, ele galgava raízes e mato, pulava trilhas e arbustos... Até que quando olhou para trás, não viu ninguém...

 - Despistei-os – Pensou ele

Mas quando parou para apanhar fôlego, deu conta que nunca antes tinha estado naquela parte do bosque... Nunca antes tinha entrado tão para dentro da floresta...

Andou sem rumo, a tentar encontrar um caminho, o rio, nem que fosse só uma árvore conhecida...

Mas não encontrou!

Não conseguiu encontrar o caminho de volta, e quanto mais andava, mais perdido se sentia...

Sentou-se. Estava com fome, com as roupas rasgadas, por ter corrido entre ramos e silvas, com frio... Estava a chegar a noite.

 

À volta dele o mundo escurecia... As copas das árvores tinham ficado negras e aos poucos, a noite despertava os espíritos adormecidos na Floresta...

Uivos, urros, demónios e garras, tudo parecia querer fazer-lhe mal...

Mas porque é que o Bosque, sempre tão alegre durante o dia estava tão medonho? – Pensava ele – Porque é que a noite estava tão estranha? Quando ele estava em casa, havia sempre um cobertor quentinho onde se enroscar quando tinha frio.

Pensou também no que estariam os seus irmãos a fazer – estavam a jantar! Sentados à mesa, com os pais... E ele ali, com fome e frio...

Com lágrimas nos olhos, desatou a correr... Corria como o vento, a tentar não ouvir os uivos do vento, nem ver as garras que se erguiam nas árvores, para o apanharem...

E tanto correu que ficou sem fôlego, teve que parar.

Doíam-lhe as pernas e os braços. Sentia-se sem força. Encostou-se ao tronco de uma velha árvore e deixou-se escorregar até ao chão. Ficou assim, sentado, encolhido, a chorar...

 

E tu já percebeste que árvore era aquela, não é?

Pois era mesmo a árvore onde vivia a Fada Verde.

A Fada Verde, sempre foi boa e gentil, mas conhecia as tropelias do João. Desde há muito que os animais se iam queixar de ninhos pisados, ovos roubados, tocas alagadas... Enfim, também a Fada já o conhecia.

Mas a Fada não acreditava que ele fosse verdadeiramente mau!

Nenhuma criança é simplesmente má!

Uma criança Não pode ser má!

Mas todos os animais do Bosque lhe diziam que o pequeno João era mau...

A Fada, ao ver um rapaz pequeno a chorar, mau ou não, sentiu que tinha que o ajudar. Falou-lhe:

 - O que tens pequeno?

O menino assustou-se e olhou em redor:

 - Quem está aí?

 - Sou uma amiga...

-  Eu não tenho amigos! – respondeu – Eu não quero amigos!

 - Estás perdido?

 - Não! – E encolheu-se mais. Queria ser forte, não mostrar medo. A voz da Fada era agradável, suave – como a da sua mãe, mas não quando ela não ralhava com ele – Eu estou bem! Estou só a descansar!

 - Não te vou fazer mal. Quero ajudar-te!

 - Não preciso de ajuda! Estou bem aqui!

 - Estás mesmo?

 - Claro que estou!

 - Mas, não tens saudades de casa, dos teus irmãos?

 - Não! Eles são estúpidos e não gosto deles!

 - E dos teus pais?

 - Também não! Eles nem gostam de mim!

A pequena Fada sentia-se mal, por poder ajudar todos os animais da floresta, por poder fazer flores desabrocharem, por poder colorir a Natureza, e por não poder fazer nada por um pequeno rapaz... mau.

 - Então não queres que eu te ajude?

 - Claro que não!

E a Fada calou-se...

O bosque que até então estava barulhento e medonho, ficou silencioso... A Fada Verde não podia deixar que o menino estivesse tão assustado!

Mas o silêncio às vezes pode ser pior que o barulho...

Passado um pouco, o menino estava mais assustado ainda, ao ouvir o próprio eco dos seus soluços, ao ver-se perdido e sem ninguém ao pé de si...

 - Olha... Onde estás?

A Fada apercebeu-se que o rapaz cedia um pouco...

 - Olha! – dizia o pequeno João, quase implorando uma resposta – Quem és tu?

 - Sou a Fada Verde. Vivo neste bosque. – Disse por fim, não resistindo a mais uma lágrima que fosse – e já ouvi falar muito de ti!

 - Ouviste falar de mim? Mas quem és tu? Quem te disse de mim?

 - Eu sou um pouco de tudo o que te rodeia.

 - Quem te disse...

 - Eu sei de tudo o que tu fazes...

 - O que eu faço?

 - Sim... E sei que não tens muitos amigos...

 - Amigos? Quem precisa disso? Não preciso de amigos!

 - Mas os amigos que eu falo não são iguais a ti...

 - Iguais a mim?

 - Sim, não são crianças como tu...

 - E que outros amigos poderiam ser?

 - Os pequenos animais que tu maltrataste, que tu desafiaste e assustaste...

 - Não! Não brinques comigo! Não gosto de ti!

 - Pois eu também não gosto de ti!

 - Não quero saber! Não quero saber... – e baixou a cabeça sobre os joelhos, soluçando um pouco mais alto...

A Fada Verde, sempre tão sábia, tão paciente, não compreendia muito bem os seres humanos. Este então desafiava tudo o que ela queria proteger e tudo o que ela gostava...

O pequeno João não passava de uma criança! E estava perdido...

De cada vez que a Fada Verde olhava para ele, parecia-lhe ver uma criaturinha mais pequena, cada vez que ouvia um soluço, parecia-lhe mais triste...

 

Mais uma vez ele olhou para cima, à procura de quem lhe tinha falado:

 - Olha, ainda aí estás?

 - Não! – Respondeu-lhe a Fada, sem saber muito bem de onde tinha saído uma resposta tão seca, para uma criança perdida...

 - Estás sim... Falas comigo?

 - Não! Tu não gostas de mim!

 - Eu... – E a voz desapareceu-lhe... Não conseguia falar...

A Fada sentia-se cada vez mais triste, como se a tristeza do rapaz estivesse a contagiar toda a Natureza...

O pequeno menino, sujo, arranhado, com fome e com medo, encolhido num nicho na base da árvore, deixou a Fada desarmada. Ninguém assim podia ser mau. Ou mesmo que fosse, merecia um pouco de simpatia, de carinho. Desta vez, foi a Fada que falou:

 - Olha...

 - Não fales comigo! Ninguém quer falar comigo! Ninguém gosta de mim!

E a voz triste e trémula de criança perdida deu lugar a um tom de raiva, de desespero resignado – ele parecia convencido daquilo que tinha acabado de dizer... E aceitava, sem fazer nada... Baixava os braços e deixava de lutar...

 

 - continua -

 

publicado por Nuno Coelho © às 00:17

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