Nuno Coelho

Março 11 2009

O menino Mau e a Fada Verde (cont)

 Odeio deixar histórias a meio, vamos lá?

 

-continuação-

A Fada, do seu trono de árvore viva, fez os ramos da árvore curvarem-se e abraçarem o pequeno João, protegendo-o do vento frio. Sobressaltado, ele tremeu:

 - O que é isto? Quem és tu?

 - Sou eu... Não tenhas medo...

O aconchego dos ramos da árvore fez o frio desaparecer, e ele confiou na voz que lhe tinha falado.

 - Agora, que já não apanhas tanto frio, não me queres dizer porque é que ninguém gosta de ti? – disse a Fada Verde

 - Eu não gosto de ninguém! Não me importa!

 - Mas olha que alguém gosta de ti...

 - Não, ninguém gosta de mim. Ninguém quer brincar comigo, por isso eu brinco sozinho.

 - E porque fazes mal aos outros meninos como tu?

 - Porque eles não gostam de mim!

 - Mas tu já lhes deste um motivo para gostarem de ti?

 - Eu não tenho nada! Como é que eles podem gostar de mim?

 - Ora, claro que podem gostar de ti! Basta um pouco de simpatia, vais ver que a Amizade cresce!

 - Mas ninguém gosta de mim!

 - E sabes porquê?

 - Porque... – O rapaz compreendia afinal algo – porque eu sou mau para eles?

 - Sim...

 - Mas...

 - Sim?

 - Mas eles não gostam de mim!

 - E tu, já lhes deste uma hipótese para gostarem de ti?

 - Eu...

 - Não, não deste...

 - Mas e os outros amigos? – disse o pequeno, a passar as mangas pelos olhos, para limpar umas lágrimas que teimavam em aparecer.

 - Que outros amigos?

 - Os outros que falaste há pouco?

 - Ah... Esses amigos...

 - Sim, os que não são como eu... Quem são esses?

 - Os animais e as plantas do Bosque. Eles são meus amigos.

 - Mas os animais são maus1 Eles mordem e arranham!

 - Tudo na natureza tem o seu lugar. Há animais que gostam dos Humanos, há outros animais que preferem que os deixem em paz!

 - Mas os animais que...

 - Que?

 - Mas e...

 - Queres dizer que fizeste travessuras a alguns animais, não é?

 - Sim... Eles também não gostam de mim?

 - Talvez... Porque não lhes perguntas?

 - Eles ouvem-me?

 - Sim... Neste momento, estão todos a olhar para ti, a escutar o que tu me dizes. Tudo o que ouço vai ter aos seus pequenos corações.

 - Mas eles falam a nossa língua?

 - Não. Eles não ouvem as nossas palavras. Eles ouvem o nosso coração!

 - Então é por isso que não gostam de mim?

 - Não. Não gostavam de ti porque tu não deixavas!

 - E agora?

 - Agora, depende. Se tu mudares, vais ver que os animais vão mudar.

 - Achas?

 - Claro. Todos merecemos uma segunda hipótese!

 - Mas e os meninos...

 - Os teus amigos?

 - Eu não tenho amigos... Eles não gostam de mim...

 - E tu deixas que eles gostem de ti?

 - Acho que não... – O pequeno João olhou para baixo, e reparou que durante todo aquele tempo segurava a boneca de trapos na mão...

 - O que vês?

 - Uma boneca... A boneca da Rosinha...

 - Eu vejo uma segunda hipótese1

 - Mas, eu estou perdido...

 - Talvez estejas, mas eu acho que só agora encontraste o caminho certo!

 - O caminho certo?

 - Sim. Todos temos que tomar decisões... É como escolher o caminho certo para voltar para casa!

 - Como?

 - Se errares no caminho, voltas atrás e escolhes outro.

 - Mas e se eu me perder?

 - Se tu te perderes, estás mal!

 - Eu sabia! – E a cabeça do João voltou a esconder-se entre os braços.

 - Mmm, não me digas que o menino forte de há pouco vai chorar outra vez?

 - Mas eu estou perdido!

 - Talvez não!

 - Talvez não como? Quem me vem procurar?

 - Os teus pais?

 - Eles... não gostam de mim.

 - Claro que gostam. Porque dizes isso?

 - Porque eles estão sempre a ralhar comigo...

 - E tu não fazes asneiras, para eles ralharem contigo?

 - Faço, mas...

 - Mas...

 - Mas é a única forma de eles me prestarem atenção! Nunca têm tempo...

 - Achas que eles não gostam de ti, não é?

 - Sim...

 - Mas os humanos gostam todos das suas crias!

 - Mas e os meus pais?

 - Eles também devem gostar muito de ti, se não, não trabalhavam tanto. Não será por causa disso que eles não têm tempo?

 - Sim, talvez... Mas eu estou perdido, e tu disseste que...

 - Que estás mal... a menos que...

 - A menos que?

 - Que tenhas amigos!

 - Então estou perdido!

 - Não estás não! O que sou eu?

 - És minha amiga?

 - Claro que sou!

 - Então e vais ajudar-me?

 - Não, não vai ser preciso.

 - Mas, Porquê?

 - Desta vez já te dei toda a ajuda que precisavas.

 - Mas...

 - Antes de ires, promete-me uma coisa.

 - Prometer? O quê?

 - Que vais ser simpático para todos os seres... Os Humanos e os outros amigos, está bem?

 - Sim... Mas eu não estou perdido?

 - Ah!, promete-me também que não vais contar a ninguém o que nós dissemos aqui um ao outro, está bem?

 - Sim, mas eu... Como te posso ver outra vez?

 - Trata bem dos animais. Tudo o que os seus corações escutarem, também eu vou ouvir.

 - Mas eu não estou perdido?

 - Estavas, mas agora acho que vais encontrar o teu caminho...

 - Sozinho?

 - Bem, talvez desta vez precises de uma pequena ajuda...

 - Então?

A Fada do Bosque fez a árvore poisar o rapaz no chão, e abriu um caminho por entre ramagens e arbustos, que ele seguiu... Então, Ouviu uma voz, e outra, que chamavam pelo nome do pequeno João... E outra, e outra.

Os adultos e crianças da aldeia andavam à sua procura. À frente de todos estavam os seus pais.

O pequeno correu para eles, de braços abertos, desta vez sem tropeçar ou sem se arranhar nos arbustos e silvas...

Ninguém soube o que se tinha passado no coração do bosque, mas ainda hoje, de vez em quando, o agora grande João entra no bosque, e é com se as árvores se esticassem na sua direcção, para o acariciarem. Sem dizer uma palavra, ele fala com os animais, e eles compreendem o que ele sente...

 

 

Deves querer saber o que esta história toda quer dizer, não é?

O que tu queres é o Moral da História. Pois bem, Primeiro, deixa-me explicar-te uma ou duas coisinhas sobre este moral da história:

As histórias que os adultos contam são na maior parte inventadas. Queremos com isto tentar ensinar aos pequenos, pequenas lições, tais como não devemos roubar, não devemos ser maus para os outros, devemos tratar bem os animais e todas essas coisas que de vez em quando nos parecem um pouco exageradas.

Pois tenho uma pequena novidade para ti, que até já deves ter notado: Os adultos também erram!

Pois é.

E como é que nós sabemos que eles estão certos? – Não sabemos.

Bem, pelo menos, a maior parte das vezes eles estão certos, o que não quer dizer que por errarem de vez em quando, eles sejam burros!

Então, o que devemos fazer? Simples! Devemos sempre escutar o que os adultos têm para nos dizer, especialmente os nossos pais, pois eles sabem um pouco mais do que nós. Mas não sejas muito exigente com eles! Por vezes é fácil esquecerem-se que também já foram crianças. Tenta compreender os adultos, porque os adultos precisam de aprender uma ou duas coisitas com as crianças.

 

Então e qual é a vantagem das histórias? Pois bem, as histórias servem para nos mostrar como é que certas situações se podem tornar mais ou menos complicadas, se seguirmos pelo caminho errado.

Peço-te então, e depois de todo este palavreado, que vejas sempre o moral da história como uma questão: Estará certo? Será só isso? Não haverá mais qualquer coisa que afinal não esteja tão certa na história?

Pois bem. Lembra-te que foi um adulto que escreveu a história que tu leste. Esse adulto já foi criança, claro, mas é fácil esquecer alguma coisa que tu podes achar fundamental! – Mesmo o Moral da história pode ser um tanto forçado, ou não fazer muito sentido.

O que te peço afinal chama-se Espírito crítico – Critica, analisa, compreende! Em toda a tua vida de criança, aprende a desenvolver o teu espírito crítico, e vais ver que quando fores grande não te vai custar nada veres o mundo pelos olhos de um adulto.

 

Vamos então ver qual é o moral da história que leste?

Temos um rapaz que é mau, perde-se na floresta, fica bonzinho... Pois está claro que é história! – Moral da história? – Nunca faças aos outros o que não queres que te façam a ti! – É o meu ditado favorito! E muito certo. Quando pensares em fazer alguma coisa seja a um amigo, seja a um animal, pensa no que irias sentir se o teu amigo te fizesse isso a ti!

Mas não é bem isso. Talvez seja algo mais do género: Se fores bom com os outros, os outros vão ser bons contigo – Que também não é mau... Mas ainda não é isso! Bem, este está difícil.

Deixo-te então aqui com um desafio! Tenta compreender a história, perceber porque agiram assim os intervenientes, tenta analisar a sua forma de proceder! Como reagirias tu? – E se achares que algo não está bem, então, escreve tu a tua história, e vais ver como o teu espírito crítico te ajudou a compreender um pequeno pedaço do mundo, seja ele verdadeiro, inventado ou apenas fruto de uma cabecinha sensacional como a tua!

Se não queres pensar muito, ou se estás um pouco perdido nas tuas ideias, vai aqui uma ajudinha: Os amigos são muito valiosos. Devemos ajudar os nossos amigos, porque quando precisarmos de ajuda, eles também nos vão ajudar.

  - Nuno Coelho © - 2002 

publicado por Nuno Coelho © às 00:08

História fascinante! como possível moral a ser extraída, os outros nos devolvem aquilo que lhes damos, ou melhor, usando a lei da física "a toda ação corresponde uma reação ", ou ainda a lei do retorno: "aquilo que fazemos retorna para nós" como faz um boomerang .
Você tem muito talento para criar e contar histórias . Parabéns!
Céu a 11 de Março de 2009 às 23:12

Durante muito tempo, muitos textos ficaram no baú, com medo da luz do dia.
Vamos ver o que mais vem ao de cima?
Abraço, obrigado pelo seu carinho e apoio!
Nuno
Nuno Coelho © a 11 de Março de 2009 às 23:51

Blogo, logo existo! A forma de deixar uma marca no mundo
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